Pragmatismo versus Nacionalismo
no Brasil de Fernando Henrique Cardoso

Ted Goertzel
Rutgers University
Camden NJ 08102
goertzel@crab.rutgers.edu

Trabalho elaborado para apresentação no V Congresso da Brazilian Studies Association, Recife (Junho de 2000), na Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP –, Piracicaba (Junho de 2000), e na reunião da International Society for Political Psychology, Seattle (Julho de 2000).

Quando iniciei meu trabalho no livro Fernando Henrique Cardoso: Reinventing Democracy in Brazil, eu estava ansioso para ler quais estudiosos brasileiros haviam escrito sobre a personalidade de líderes políticos brasileiros. Eu havia lido pouco antes o livro de Enrique Krauze, México: Biography of Power, que ofereceu uma perspectiva completamente nova sobre a revolução mexicana, destacando a cultura e a personalidade ao invés da economia e da luta de classe. Quando estudante, eu havia lido o clássico de Samuel Ramos, El Perfil del Hombre y la Cultura en México, que explorou o papel do machismo e outros aspectos do caráter nacional mexicano. Procurei, então, trabalhos semelhantes no Brasil, mas não pude encontrar muito trabalho sério examinando a política brasileira sob uma perspectiva biográfica, tal como Krauze já havia feito para o México. Embora Eduardo Mascarenhas seja um psiquiatra, o seu livro Brasil: de Vargas a Fernando Henrique gasta 125 páginas em Vargas sem nunca analisar a personalidade dele ou explorar as razões para o seu suicídio. A única menção sobre Fernando Henrique que eu pude encontrar no livro de Mascarenhas estava no título, como se Cardoso fosse um símbolo de uma era, ao invés de um ser humano.

Esta lacuna na literatura é surpreendente, porque história política brasileira está cheia de personalidades coloridamente interessantes e de eventos que pedem uma interpretação psicológica. A dramática marcha de Luis Carlos Prestes para o exílio nos anos trinta, por exemplo, tem significado simbólico considerável para muitos brasileiros, especialmente na esquerda. Mas eu não pude achar nenhum escritor que houvesse sondado as motivações psicológicas para o heroísmo auto-derrotista de Prestes. Nem pude achar uma interpretação psicológica sobre a renúncia auto-derrotista de Jânio Quadros da presidência em 1961, ou dos conflitos familiares estranhos que sabotaram a presidência de Collor de Mello.

Finalmente, descobri um livro que tentou uma investigação psicológica sobre o regime político de Cardoso, O Príncipe da Moeda, de Gilberto Vasconcellos. Vasconcellos denuncia Cardoso como um "anti-herói, no sentido de que o herói, como diz Ortega y Gasset, é um sujeito que não está contente com a realidade" (pág. 20). Com essa tese Vasconcellos provavelmente sairia perdendo no caso de um herói como Prestes, do ganhando no caso de um anti-herói como Cardoso. Vasconcellos não só se mostrou possuído de uma raiva com relação a Fernando Henrique, mas também com relação a pessoas como Luís Carlos Bresser Pereira e Franscisco Weffort, porque eles não pareciam irritados o bastante com a situação. Ele denuncia os tucanos por sua "ausência de qualquer indignação diante da miséria do país " (pág. 20). Ele rejeita o Plano Real [a reforma monetária proposta por Cardoso e que terminou com a hiperinflação] porque o plano "carece de alma, pois está situado no reino abstrato do dinheiro". Ele o denuncia como um exemplo do "erotismo castrado" da intelectualidade de São Paulo que "despreza amor, a pátria e o espírito" (pág. 40).

No princípio, suspeitei que livro de Vasconcellos fosse uma sátira. Seguramente, ninguém poderia estar utilizando estes argumentos seriamente? Para mim, no Brasil nunca me pareceu faltar amor, patriotismo ou espírito. Nem mesmo em São Paulo. O que freqüentemente faltou foram políticas econômicas saudáveis. Por que então denunciar o Plano Real por lidar com a questão do dinheiro? Qual deveria ser então o tema de um plano econômico? Um presidente, afinal de contas, é responsável pela política econômica, não por garantir o espírito romântico de uma nação. Nunca consegui me encontrar pessoalmente com Vasconcellos, mas falei com ele um bom tempo ao telefone, e ele me parecia bastante sério. Mesmo que o livro dele fosse uma piada, essa não foi a impressão que ele me deixou. Eu também falei com vários outros brasileiros com idéias semelhantes, embora nenhum as tenha escrito tão habilmente do modo como Vasconcellos o fez.

Vasconcellos culpou os problemas de Brasil em uma estranha conspiração de agentes financeiros internacionais, tecnocratas pragmáticos de São Paulo, e os produtores de telenovela do Rio de Janeiro – um grupo que ele denominou psicovideopopfinanzkapital. O que mais o enfureceu sobre este grupo – fora o fato deles obterem o poder e Leonel Brizola [com seu populismo de esquerda no Rio de Janeiro] não – era a sua aparente falta de paixão e espírito. O livro dele é um protesto angustiado contra a esterilidade do mundo moderno – um mundo dominado pelos economistas e técnicos, e não mais pelos caudillos e caciques.

Talvez eu não devesse ter sido surpreendido tanto por esta situação. Os brasileiros são latinos, afinal de contas. Por que eles não deveriam almejar um Don Quixote? Mas este é um estereótipo muito fácil. O slogan de Auguste Comte, ordem progresso, ainda está na bandeira brasileira. Comte foi o fundador da sociologia, e o seu movimento positivista teve um papel importante na história brasileira. Muitos brasileiros são bastante pragmáticos e competem prosperamente na economia global. Eu não poderia imaginar que toda a oposição a Cardoso fosse baseada nos tipos de razões apresentadas por Vasconcellos. Seguramente havia pessoas que tinham críticas lógicas e pragmáticas às políticas de FHC, pessoas que haviam estudado as opções cuidadosamente, e assim concluído que o país poderia haver estado em situação ainda pior caso Lula da o Silva [o candidato do Partido dos Trabalhadores] houvesse sido eleito o Presidente em 1994.

Pensei então que seria provável obter este tipo de análise de pessoas que nós chamamos "policy wonks", os pesquisadores que trabalham para as grandes agências de pesquisa, think thanks, e chegam a juízos cuidadosamente debatidos sobre assuntos e políticas públicas. O Brasil tem um grande número de muitos tais peritos, e eu os considero tão bem informados e sofisticados quanto aqueles que podemos encontrar nos Estados Unidos. Quando eu lhes perguntei o que teria acontecido se o Lula houvesse sido eleito, eles quase concordaram em que coisas teriam sido bem pior. Pelo menos a curto prazo, o capital teria fugido do país e haveria uma grande crise social e econômica.

Foi por causa desta análise que muitos dos policy wonks haviam apoiado Cardoso. Porém, nenhum deles parecia realmente entusiasmado com a opção. Era uma escolha que representava, dos males, o menor, a melhor alternativa dadas as circunstâncias. Outros haviam apoiado Lula ou Brizola, ou outros dos líderes esquerdistas, embora soubessem que a vitória do seu candidato conduziria a muitos problemas para o Brasil. Parecia haver duas razões para esta decisão. Primeiro, muitos deles haviam defendido idéias de esquerda durante toda a sua vida, e estavam frustrados pelo fato destas idéias nunca haverem ganho o poder. Haviam sido enganados pelo súbito golpe de estado em 1964, pela ditadura longa militar, pela morte de Tancredo Neves [um líder reformista popular que morreu de causas naturais logo após ser eleito Presidente nas primeiras eleições depois da ditadura militar], e então pelas derrotas eleitorais de Lula. O seu lado bem que mereceria uma chance no poder, para compensar o passado. Segundo, eles pareciam querer fazer o país sofrer pelas políticas avaras, imorais e capitalistas seguidas no passado. Talvez, sentiam que o país não mereceria um sucesso até que se arrependesse pelos seus pecados anteriores.

Estes intelectuais souberam, é claro, que o sistema soviético havia se desmoronado, e que países capitalistas na América Norte, na Europa e na Ásia estavam prosperando. Eles perceberam revolução socialista não era neste momento uma opção realista para o Brasil, e nem defenderam esta causa. Contudo, emocionalmente eles ainda não haviam acertado as suas contas com o fracasso de socialismo. Quando eu participei como membro de um painel da Associação Sociológica Latino-Americana que se reunira na Universidade de São Paulo, em 1997, todos os demais participantes eram altamente críticos do governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas quando eu lhes perguntei quais as políticas que eles defenderiam no lugar daquelas que Cardoso estava seguindo, eles mesmo admitiram francamente que não tinham nenhuma alternativa. O papel de intelectuais, me disseram, era criticar. Eles não tinham nenhuma obrigação de oferecer alternativas.

Em toda nação, há as pessoas que sentem culpadas pelos sucessos de sua própria nação. Na América, essas pessoas se sentem culpadas pelo nosso sucesso econômico e acreditam que isso deve ter sido ganho explorando o terceiro mundo, ou saqueando o meio-ambiente, ou cometendo algum outro pecado. O Brasil é conhecido ao redor do mundo por ter mulheres sensuais, samba, Carnaval. Todo mundo na América conhece A Garota de Ipanema. Talvez alguns brasileiros, como Vasconcellos, se sintam culpados por isto. Por que então eles denunciam os líderes do país por sua "recusa do romântico, do carisma e do amor" (pág. 39)? A maioria dos americanos preferiria que nosso presidente mantivesse o zíper de suas calças fechadas e focalizasse os negócios. A coisa que mais me preocupou sobre o livro de Vasconcellos foi a preocupação dele com o fato de que Cardoso "tem horror à idéia de martírio, ou seja: não é o desejo de ser mártir o que lhe seduz psicologicamente" (pág. 83). Tendo tido a sorte de eleger um presidente honrado que sabia o que estava fazendo, por que um brasileiro deveria almejar a ter um mártir complexo? É difícil entender isto, exceto como uma necessidade psicológica de sofrer em favor das indulgências da nação.

Quando examinei a informação que eu tive sobre Cardoso não como político, mas como uma personalidade, era óbvio que ele não se ajustava ao perfil do tipo de líder revolucionário que aparentemente muitos brasileiros estavam buscando. Bruce Mazlish, em seu estudo comparativo sobre Cromwell, Robespierre, Lenin e Mao Tse-tung (O Asceta Revolucionário), descobriu que estes revolucionários compartilhavam um amor-próprio exagerado que mascarava uma insegurança ainda mais profunda. Eram indivíduos altamente disciplinados, que tiveram poucas contatos mais amistosos com outras pessoas, mas deslocaram suas emoções para abstrações como "a Revolução," "o Povo", a "Humanidade, ou a "Virtude". Eles não puderam tolerar ninguém que discordasse deles ou ameaçassem a sua personalidade pública.

Cardoso não parece ser assim. Mas ele tampouco se esconde a si próprio. Pessoas o descrevem freqüentemente como arrogante. De fato, ele alegremente admite isto sobre ele. Mas a arrogância dele não mascara insegurança escondida. Ele é tão confortável consigo mesmo que não sente nenhuma necessidade de depreciar outras pessoas, e assim eles se sentem confortáveis ao redor dele. Psicologicamente, o perfil dele não é difícil de explicar. Está arraigado em uma infância feliz e encorajadora, e em muitas formas todas as famílias felizes têm esse mesmo perfil.

As sua características pessoais fazem de Cardoso uma pessoa altamente efetiva quando se trata da venda a "varejo" de sua política. Ele mantém boas relações pessoais com políticos de todas os partidos e tendências políticas, e é difícil achar qualquer um que o conheça que tenha alguma repugnância pessoal contra ele. Isto é especialmente importante no Brasil, onde as relações pessoais são muito mais importantes do que as lealdades partidárias. Porém, ele é fraco no âmbito da venda a "atacado" de sua política. Talvez por causa da própria falta de dores internas, ele tem dificuldades em comunicar os seus sentimentos às multidões. Casualmente eu o assisti na televisão uma vez, quando a nação estava enfrentando uma grande crise financeira. A mensagem dele foi breve e objetiva; ele simplesmente disse, não se preocupem, nós sabemos o que nós estamos fazendo e nós tomaremos todos os cuidado sobre isto.

Cardoso é um intelectual urbano que usa grandes termos e fala vários idiomas estrangeiros, e ele não poderia enganar a ninguém se simplesmente pretendesse ser qualquer outra coisa. Ele parece um professor de faculdade, e as falas dele estão cheias de perspicácia e informação. Para mim, as cópias e transcrições de seus discursos, publicadas em tipos minúsculos nos jornais, foram muito úteis para a minha biografia. Mas ele tem pouca habilidade para despertar o entusiasmo em uma multidão. Seus conselheiros puderam o vender a sua imagem como a de um homem inteligente com respostas para os problemas das pessoas, mas não como uma pessoa simpática que sente a dor deles.

Se ninguém pressiona Cardoso para que tente ser mais carismático, muitas pessoas estão continuamente pressionando-o a ser mais autoritário. Ele acha que muitos dos seus partidários, "curiosamente, vivem querendo que eu seja ditador". As pessoas exigem que tome uma ação decisiva, algo que vai mais além dos poderes legítimos da presidência. "Por que o governo não resolve a questão? Você pode! Faz uma medida provisória, dizem. A vontade imperial deve prevalecer. Inconscientemente querem um ditador" (Veja, 10 de setembro de 1997).

Se as coisas fossem tão ruins, eu imaginei, como é que esse país acabou tendo um presidente como Fernando Henrique Cardoso em vez de uma figura como o Hugo Chavez da Venezuela? Talvez Deus de fato seja brasileiro? Porém, eu não pude encontrar nenhuma evidência de intervenção divina, a menos que Deus agisse por intermédio do então Presidente Itamar Franco. Cardoso se tornou o presidente por causa do seu sucesso surpreendente terminando a inflação, ainda como Ministro da Fazenda. E ele foi designado Ministro da Fazenda pela elite política, não pelo público geral. Ele não teve as características pessoais ou habilidades necessárias para comunicar os seus sentimentos às massas, mas teve a confiança das elites. Não porque ele representasse o que interessa à elite, mais que os interesses de outros brasileiros, mas simplesmente porque eles o conheciam pessoalmente e tinham trabalhado com ele. Itamar Franco e os líderes do Congresso perceberam que o sistema financeiro tinha falhado, e eles tiveram a determinação de encontrar uma solução dentro das normas constitucionais. Em vez de permitir que os extremistas dividissem o país, como ocorreu em 1964, a maioria moderada na liderança nacional inverteu as responsabilidades, privilegiando a economia e entregando-a a um homem em quem eles confiaram. E eles lhe deram a autoridade excepcional que ele necessitou para implementar o Plano Real.

Ironicamente, Cardoso foi capaz de fazer as mudanças econômicas necessárias porque ele chegou ao poder em um momento de fraqueza nacional. A elite política estava assustada porque inflação parecia estar indo fora de controle. A moral era baixa, não só por causa da inflação, mas por causa dos desastres políticos do governo de Collor de Melo. A conduta de Collor de Melo tinha desgraçado o Brasil, fazendo com que o país fosse visto mais como uma Banana Republic do que como uma potência industrial em emergência. Os eleitores que haviam acreditado em Collor foram humilhados e se desiludiram, tornando-se cautelosos em confiar em qualquer outro político no futuro. Nem sequer os historiadores, que geralmente têm uma perspectiva mais ampla sobre os eventos, puderam ajudar, tendo sido também desencorajados. O renomado historiador Boris Fausto, ao escrever as observações finais de sua nova História do Brasil, que foi adotada por toda a parte em cursos universitários do país, terminou o livro em uma nota desesperada. Ele desejara certamente que as coisas pudessem melhorar, mas não pôde imaginar como. Na ocasião, a maioria dos brasileiros se sentia desesperado. O Partido dos Trabalhadores não teve nenhuma plataforma para acabar com a inflação, e simplesmente se propôs a aumentar os salários o mais rapidamente possível, para assim continuamente adequar os salários ao ritmo da inflação.

Mas os problemas do Brasil eram fundamentalmente políticos, não econômicos. O Brasil teve economistas bons que sabiam como terminar com uma hiperinflação, da mesma maneira como os economistas o haviam feito na Argentina, Bolívia e Israel. O problema principal não estava na questão de se formular uma política econômica boa, mas sim fazer com que a nação aceitasse isto. Cardoso pôde fazer isto, em grande parte porque uma fraqueza na moral da nação abriu uma janela de oportunidade para mudanças que, caso contrário, o sistema nunca teria aceitado.

Em comparação com seus predecessores, Cardoso foi altamente efetivo. Ainda assim, a sua popularidade perante a opinião pública tem sido bem baixa desde desvalorização do Real, e não era incrivelmente alta antes disso. Cardoso entende que as pessoas estão infelizes com ele por causa da tensão econômica e insegurança que a desvalorização causou. Está desapontado particularmente, porém, com o fato de não haver tido a compreensão dos intelectuais que, segundo ele pensa, deveriam entender melhor o que ele está fazendo. Cardoso parece ferido pelo fato de que, entre todas as pessoas, os intelectuais são os que menos o entendem. Ele diz, "o que mais me incomoda mais é fato de não estar sendo compreendido por aqueles que deveriam me entender. Pelos intelectuais e pela vanguarda política. É a estas pessoas que eu digo, isso não é possível!". Cardoso e os intelectuais parecem freqüentemente estar falando uns com os outros em um diálogo de surdos. Isto reflete uma diferença em relação a valores intelectuais. Cardoso sempre foi um pragmatista, e o pragmatismo nunca foi altamente estimado em América Latina, particularmente entre intelectuais nas humanidades e nas ciências sociais e humanísticas. Cardoso percebe que os brasileiros "não aceitam as dimensões pragmáticas do espírito" Anglo-saxão completamente. Na Assembléia Constituinte, ele uma vez citou a observação de que, entre brasileiros e outros de cultura ibérica, a atividade produtiva é, por si só, menos estimada que contemplação ou o amor ".

O desgosto dos intelectuais para com Cardoso pode refletir uma preferência pelo modelo da cultura Boêmia que está em contraste com a cultura Burguesa (Cesar Grana, Bohemian vs. Bourgois). Como nota David Brooks no seu novo livro novo BOBOS (Bourgeois Bohemians) in Paradise, na Europa dos anos 1830 "uma aflita aversão à burguesia se tornou a emoção oficial da maioria dos escritores e intelectuais (p 66)". Um dos escritores mais influentes nesta escola foi Gustave Flaubert, que assinou algumas de suas cartas como "Bourgeoisophobus" e argumentou que o ódio à burguesia era "o começo de toda a virtude". Esta atitude européia contrastou com os valores francamente burgueses de escritores americanos como Benjamim Franklin.

Tanto o espírito boêmio como o burguês estão claramente presentes no Brasil. Os homens de negócios de Brasil e economistas mostraram que podem certamente ser totalmente pragmáticos quando competem na economia mundial moderna. Porém, muitos intelectuais acadêmicos preferem intenções nobres acima das realizações mundanas mais tangíveis. Eles olham para baixo, freqüentemente para os políticos e homens de negócios, vendo-os como que com menos espírito do que eles, envolvidos em preocupações insignificantes, materialistas. Talvez isto mudará quando os brasileiros ficam mais familiarizados com o conceito de cultura "BOBO" – o boêmio burguês –que agora predomina na indústria de alta tecnologia nos Estados Unidos. Bobos combinam estilo de vida "hip" que Norman Mailer e outros idealizaram nos anos sessenta com o do empresário econômico e de valores políticos libertários.

Este tipo de mudança cultural, porém, requereria uma geração nova de liderança, e eu não estou suficientemente familiarizado com tendências na cultura brasileira, para poder saber o quão forte tal tendência pode ser. Fernando Henrique Cardoso representa uma geração mais velha, mas ele pôde notavelmente reconhecer mudanças em padrões culturais, econômicas e sociais, e tirar proveito das aberturas que a história lhe apresentou. A realização dele foi aceitar as coisas que não puderam ser mudadas, e então fazer história mudando coisas que poderiam ser. Ele mudou história? Certamente não do modo dramático que Lenin ou Castro o fizeram. Ele não levou o Brasil a mudar de direção, a ir para o capitalismo em vez do socialismo. O Brasil já estava evoluindo para participação madura na economia de mercado globalizada. O que ele fez foi facilitar o processo, tornando-o muito menos doloroso do que poderia ter sido. Graças à intervenção dele, o problema da inflação foi resolvido antes do país entrar em uma crise fiscal total. Reformas necessárias nos sistemas tributário e de aposentadoria, bem como no serviço civil e o sistema político, estão sendo feitas antes do país entrar em um colapso completo. Sem Cardoso, acredito eu que o país teria levado muito mais tempo para que estas coisas fossem realizadas. Eu creio que, sem Cardoso, a história recente do Brasil pareceria muito mais como a história recente do Equador ou da Venezuela. Também, estes países se reconstituirão, mas provavelmente depois de uma crise, não antes dela.

Como um cientista social na área da sociologia aplicada, o papel de Cardoso é igual ao de um médico profissional que prescreve o melhor tratamento disponível para os problemas do seu paciente, não o de um pesquisador médico que busca tratamentos novos para enfermidades incuráveis. Afortunadamente, Brasil não sofre de enfermidades sem igual ou incuráveis. É provável que os tratamentos que estão funcionando em outros lugares funcionem bem no Brasil, e seria irresponsável da parte de Cardoso não os utilizar. Brasil está como um paciente que precisa perder um pouco de peso (burocracia de excesso, direitos de pensão, etc.). Os visionários radicais estão discutindo sobre o visual com o qual o país deveria estar ao término do tratamento. Aproximadamente, isto é o mesmo que discutir se uma pessoa necessita perder 20 Kg ou 30 Kg. Isso não afeta o que necessita ser feito hoje. Muitas pessoas estão esperançosas por uma poção mágica que faça o peso do excesso diminuir sem esforço. Os populistas sempre estão empurrando soluções deste tipo (recusar o pagamento das dívidas, protestar o Banco Mundial, etc.). Segundo esta analogia, Cardoso é o médico que continua dizendo que a única solução é uma dieta sensata e muito exercício. Deixe sobremesas e comidas gordurosas, dê uma chegada ao clube alguns dias da semana. Este conselho não parece animador, e muitos brasileiros não estão contentes por serem lembrados sobre isto. Mas se eles aderirem a esta receita, ela funcionará.