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FHC EXCLUSIVO
A teoria da independência
Trajetória política de FHC
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TED GOERTZEL
especial para a Folha
Um dos aspectos mais intrigantes na carreira de FHC é
a consistência de suas visões teóricas a despeito de
aparentes mudanças em suas opções políticas.
Sua formação acadêmica foi marcadamente marxista, e,
entretanto, ele não deixa de advogar a privatização
e o livre-mercado. Não haveria dificuldade em entender isto se FHC
tivesse abandonado seu radicalismo juvenil. Mas ele reafirma tudo o que
escreveu e insiste em dizer que, dadas as mesmas circunstâncias,
reescreveria tudo outra vez. E sua recusa em se desculpar por seu passado
ou por seu presente irrita seus oponentes em ambos os extremos do espectro
político.
À esquerda, o cientista político José Luiz Fiori sugere
que ``muito embora Cardoso tenha alcançado proeminência como
sociólogo marxista nas décadas de 60 e 70, pode-se argumentar
que sua trajetória política não apresenta grandes
rupturas -ainda que suas primeiras obras contenham uma veemente e bem-fundada
condenação do curso que tomou como presidente'' (1). Fiori
denuncia Cardoso como joguete da elite econômica internacional -agora
de feição neoliberal e neocolonialista. Mas ele não
acredita que Cardoso tenha abandonado suas teorias marxistas: pelo contrário,
ele estaria pondo seu marxismo a serviço de seus novos mestres.
À direita, o cientista político americano Robert Packenham
assina um livro belicoso, no qual denuncia Cardoso como um ideólogo
cujas teorias são impermeáveis à comprovação
empírica. Mas o próprio Packenham admite que ``ninguém
exemplifica as mudanças no pensamento marxista melhor do que Cardoso''
(2). Ele apóia FHC politicamente e diz que teria votado nele se
fosse brasileiro; mas nem assim sente-se capaz de perdoar-lhe a incapacidade
de criticar seu passado marxista.
Mas o marxismo não é uma crítica do capitalismo e
um anúncio da revolução socialista? Sendo assim, como
seria possível usá-lo em defesa da nova ordem mundial capitalista?
O que significa ser marxista numa era pós-comunista, na qual ninguém
mais acredita numa economia socialista administrada pelo Estado?
A verdade é que os escritos de Cardoso mostram que ele tem sido
bem mais coerente em suas teorias e em suas opções políticas
do que muitas pessoas gostariam de supor. Cardoso desenvolveu uma crítica
do marxismo num artigo publicado na França já em 1969 (3).
Nesse tempo, ele ensinava na Universidade de Paris, mais especificamente
no campus de Nanterre -um foco de ativismo estudantil onde muitos pensavam
que o capitalismo estivesse em seu leito de morte e a revolução
marxista já a caminho.
Cardoso discordava. Ao contrário de muitos marxistas que, diante
do fracasso das previsões de Marx, lançavam o ônus
sobre supostos erros de avaliação política, Cardoso
percebeu que o núcleo da teoria econômica de Marx continha
falhas substantivas. O marxismo simplesmente não tinha como explicar
as conquistas sociais da classe operária na Europa ou a divisão
do mundo capitalista em países centrais e periféricos. A
grande força de Cardoso foi sua capacidade de encarar a realidade,
mesmo quando esta se chocava com a teoria. Por que, então, Cardoso
não abandonou o marxismo? Em muitos sentidos, foi isso mesmo o que
ele fez. Mas, a seus olhos, Marx ainda conservava seu valor, se não
como economista, então como espécie de filósofo do
conhecimento. Pois Cardoso reteve da obra de Marx o modelo de análise
dialética, que combinava pesquisa econômica formal e sensibilidade
para análises sóciopolíticas.
Ao enfatizar a dialética enquanto elemento-chave do pensamento marxista,
Cardoso simultaneamente adicionava uma forte dose de voluntarismo a seu
marxismo. Cardoso acreditava que os resultados políticos não
eram mecanicamente determinados, mas dependiam de decisões estratégico-políticas
tomadas pelos líderes, ao passo que muitos marxistas tratam o marxismo
como doutrina determinista que prediz mudanças inevitáveis
a partir das necessidades funcionais do sistema econômico. Cardoso
não é o único marxista a rejeitar essa interpretação
funcionalista de Marx -o filósofo marxista Jon Elster explorou essa
questão em profundidade (4).
Ao contrário de muitos sociólogos, Cardoso não dirigiu
sua obra para a busca de generalizações científicas
universais. Seu interesse recaiu sempre sobre a realidade de períodos
históricos específicos -de conjunturas, portanto. (...)
Essa concentração sobre realidades emergentes, sobre verdades
próprias a um dado período histórico pode ter sido
uma herança da família de Cardoso. O feijão-com-arroz
da vida política foi parte das conversas de jantar em sua infância;
seu pai era general, advogado e congressista. Cardoso tinha uma melhor
percepção de como funcionavam as coisas do que muitos de
seus colegas acadêmicos, imersos em teorias, mas sem qualquer contato
pessoal com a tomada de decisão nas altas esferas políticas.
A geração de Cardoso foi profundamente moldada pelo movimento
de 1964. Muitos esquerdistas de então deixaram-se tragicamente levar
pela crença de que a crise política era causada pelo colapso
do capitalismo dependente; pensavam que as únicas alternativas eram
a revolução socialista ou a estagnação socioeconômica.
Na verdade, havia uma terceira possibilidade: desenvolvimento capitalista
contínuo combinado a reformas sociais democráticas. Se esta
última possibilidade não se concretizou, a culpa recai antes
sobre a crise política que sobre a crise econômica. Os reformistas
moderados, que tinham voto e apoio popular suficientes para impor um compromisso,
deixaram-se arrastar por extremistas de um lado e de outro, todos contrários
à reconciliação.
Em sua análise do movimento de 1964, Cardoso deixou claro que o
desfecho não fora resultado inevitável das forças
econômicas: ``Não penso que 1964 estivesse inscrito inexoravelmente
na lógica econômica da história. Antes penso que o
processo político joga um papel ativo na definição
do curso dos acontecimentos. Ou seja: se é certo que a inflação,
o acerbamento da luta de classes, a dificuldade de manter o ritmo de expansão
capitalista nas condições socioeconômicas prevalecentes
durante o governo Goulart radicalizaram as forças políticas
e moveram as bases institucionais do regime, o movimento insurrecional
foi uma das saídas possíveis e não a única,
como se interpretaria a partir de uma visão economicista da história''
(5).
Cardoso não precisava abandonar o marxismo por uma outra teoria
porque sua interpretação de Marx permitia-lhe incluir todos
os fatores que reputava importantes. Ainda que seus pensamentos aproximassem-no
mais e mais do ``mainstream'' da ciência política, ele prosseguiu
emocionalmente ligado às suas raízes marxistas. Numa entrevista
publicada em 1978, Cardoso disse a seu interlocutor:
``Se você quer saber qual o meu ato de fé, como pessoa, eu
sou favorável a acabar com o mundo dos exploradores e explorados!
Mas isso é um ato de fé, que tem talvez uma importância
biográfica, uma importância moral. Mas o importante é
desenvolver uma atitude política, e não uma atitude atitude
moralista. Importante é saber quais são as forças
sociais que estão se movendo numa dada direção. Importante
é introduzir o ato de fé na conjuntura'' (6).
A preocupação de Cardoso com o fluxo de eventos e com a possibilidade
de direcioná-lo em termos de futuro próximo é algo
que o distingue de seus pares acadêmicos, cuja interesse está
voltado para a formulação e a comprovação de
teorias. Robert Packenham, por exemplo, passou anos testando e criticando
um conjunto de idéias que ele e outros mais chamam de ``teoria da
dependência'', para finalmente chegarem à conclusão
que a teoria -especialmente na versão do ``desenvolvimento no subdesenvolvimento''-
está errada. Esta última versão, associada sobretudo
aos trabalhos de André Gunder Frank, predizia que, ao menos enquanto
permanecessem atrelados ao capitalismo multinacional, os países
do Terceiro Mundo empobreceriam mais e mais. Sua única chance estaria
em romper com o sistema capitalista mundial e enveredar por um caminho
de desenvolvimento socialista.
Packenham e muitos outros têm estatísticas suficientes para
demonstrar que essa teoria estava errada. Cardoso diria que o mundo mudou:
no século 19, os capitalistas extraíam matérias-primas
brutas da América Latina para então processá-las na
Europa; hoje, as companhias multinacionais transferiram boa parte de sua
produção para países do Terceiro Mundo, e isso permitiu
que alguns deles se desenvolvessem rapidamente.
Pois Cardoso jamais acreditou na ``teoria da dependência'' no sentido
em que Packenham e outros cientistas sociais usam o termo ``teoria''. Para
Cardoso, a dependência das nações do Terceiro Mundo
era um tópico de estudo importante, mas não uma teoria a
ser testada e retestada. Já em seus tempos de estudante em São
Paulo, seu mentor Florestan Fernandes ensinou-lhe a usar teorias sociais
como uma caixa de ferramentas, da qual se retiram as ferramentas mais adequadas
a uma dada tarefa. Nos anos 70, longe de entrar em crise, a economia brasileira
expandia-se em moldes capitalistas. A questão premente era imaginar
uma transição pacífica de volta à democracia.
O marxismo não tinha com que ajudar, de modo que Cardoso voltou
à caixa de ferramentas e de lá tirou novas idéias.
Ao longo do processo de democratização, citou frequentemente
o pensador italiano Norberto Bobbio; em seu discurso inaugural no Senado,
fez citações não de Marx, mas de Max Weber, o eminente
sociólogo da burocracia.
Seu hábito de ``ler de tudo'' proporcionou-lhe um amplo conhecimento
interdisciplinar, algo mais a diferenciá-lo de muitos acadêmicos
presos a especializações estreitas. O presidente americano
Harry Truman disse certa vez que gostaria de encontrar um economista maneta,
porque todos os que conhecia tinham o hábito de dizer ``por um lado
isso, por outro lado aquilo''. Cardoso resolveu o problema tornando-se
seu próprio economista maneta. Muitos políticos entendem
o bastante de sociologia ou ciência política para tomarem
sozinhos suas próprias decisões sobre como lidar com a opinião
pública ou com questões administrativas; mas poucos realmente
conhecem a ciência econômica moderna a ponto de poderem argumentar
com seus conselheiros econômicos. (...)
Em última análise, FHC conquistou a presidência porque
tinha uma solução para o problema nacional mais urgente,
enquanto a oposição não tinha nada. Sua formação
de cientista social capacitou-o a entender e usar os conhecimentos econômicos
mais recentes sobre hiperinflação e seus remédios,
assim como a formar suas próprias opiniões sem necessidade
de assessores.
Atualmente, a grande questão é saber se FHC terá o
cacife político para levar a cabo as reformas necessárias
para sustentar o sucesso já obtido. Se for entravado pelo Congresso,
os pessimistas terão tido razão. A hiperinflação
pode retornar, e o Brasil pode outra vez ser vítima das doutrinas
radicais que oferecem muitos bodes expiatórios, mas nenhuma solução.
Por terem dado a presidência a um professor do calibre de Cardoso,
os brasileiros têm tido que ouvir algumas verdades desagradáveis,
em especial no que diz respeito à necessidade de cortar garantias
burocráticas e os altos gastos governamentais. Há sempre
a tentação de rejeitar seu discurso professoral em favor
da retórica sedutora do populismo. A força de Cardoso sempre
esteve em sua capacidade de encarar realidades desagradáveis -uma
lição difícil de seguir.
Comparados aos norte-americanos, os brasileiros têm um notável
respeito por intelectuais e devem estar relutantes em voltar aos políticos
tradicionais. Cardoso já realizou mais que qualquer um de seus predecessores
pós-militares -aliás, um páreo sabidamente nada difícil.
Cardoso entrará para a história como o presidente que preparou
o Brasil para o século 21, o que não deixa de ser um feito
condizente com um homem que iniciou a carreira esforçando-se por
adaptar o marxismo do século 19 à realidade do século
20.
Notas
1.Nacla - ``Report on the Americas'', maio de 1996
2.``The Dependency Movement: Scholarship and Politics in Development Studies''
(Harvard University Press, 1992), pág. 216.
3.``La Contribution de Marx à la Théorie du Changement Social'',
in ``Marx et la Pensée Scientifique Contemporaine'' (Mouton, 1969)
4.``Marxism, Functionalism, and Game Theory'', in ``Theory and Society'',
vol. 11, 1982
5. ``O Modelo Político Brasileiro e Outros Ensaios'' (Difel, 1972),
pág. 66
6.``Democracia para Mudar'' (Paz e Terra, 1978), pág. 68
O texto acima foi extraído de um ensaio maior
do autor.
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