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English language version of this article, "Why Lula Owes FHC an Apology"
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Issue 183, Week of April
12 to April 18, 2003. If it is no current when you see this, click
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ARTIGO - from the Folha de Sao Paulo, Sunday, April 13.
Por que
Lula deve um pedido de desculpas a FHC
TED GOERTZEL
ESPECIAL PARA A FOLHA
Lula tem muito pelo que pedir desculpas. Em lugar de dar ao Brasil um modelo
econômico novo em folha, ele simplesmente requentou o modelo velho
de Fernando Henrique Cardoso. Depois de passar oito anos criticando as propostas
de FHC de reforma tributária e da Previdência, ele reconheceu
que Fernando Henrique estava certo, afinal.
Ele anunciou uma campanha Fome Zero moldada no programa norte-americano
de selos-alimentação, sem nem sequer mencionar que o governo
de Fernando Henrique já tinha instituído programas inovadores
de combate à fome e à pobreza. Em todas os setores chaves -reforma
agrária, proteção ambiental, ação afirmativa
e política externa-, sua política é quase impossível
de se distinguir da de Fernando Henrique.
Isso pode significar que o Brasil finalmente amadureceu em termos de política
partidária, tendo alcançado um amplo consenso com relação
às questões mais importantes. Ninguém vence uma eleição
elogiando o outro lado, e a popularidade de Fernando Henrique estava num
patamar tão baixo que mesmo o candidato de seu próprio partido
lhe dava reconhecimento apenas a contragosto. Lula e Fernando Henrique são
velhos amigos cuja relação data da longa luta contra o regime
militar. Eles têm metas semelhantes para o Brasil e são homens
práticos, que não têm vontade nenhuma de afundar na defesa
gloriosa de sonhos impossíveis. Após oito anos no poder, Fernando
Henrique deixou o Brasil em situação significativamente melhor
do que aquela em que o encontrou. Lula se sairá bem se puder dizer
o mesmo dentro de quatro ou oito anos.
Se estivéssemos falando apenas de uma questão particular
entre amigos, haveria pouca necessidade de um pedido de desculpas. Tanto
Lula quanto FHC compreendem a retórica política, e Lula já
expressou sua apreciação pela ajuda que Fernando Henrique
prestou durante a transição. Mas um pedido público de
desculpas seria bom para o país. Não tanto para corrigir o
registro histórico, mas para ajudar os brasileiros a entender o que
aconteceu com a visão de Lula de um novo modelo econômico e
social capaz de transformar o país.
Durante toda a campanha eleitoral, Fernando Henrique ficou frustrado porque
em nenhum momento conseguiu fazer Lula definir a que vinha em termos políticos.
Lula dizia que era contra o que Fernando Henrique estava fazendo, mas nunca
explicava o que ele faria em lugar disso.
Voltaria a nacionalizar a indústria? Reestruturaria a dívida?
Como reduziria os juros sem aumentar a dívida e a inflação?
Como aumentaria os salários sem provocar o aumento da inflação?
Como implementaria e subsidiaria uma reforma agrária mais acelerada?
Em resposta a essas perguntas específicas, Lula dizia apenas que se
reuniria com as partes interessadas e negociaria. Em nenhum momento explicou
qual seria sua própria posição.
Lula ganhou a eleição sem jamais responder de fato às
perguntas de FHC. As pessoas se contentaram em votar em imagens, sem saber
exatamente que políticas seriam usadas para implementá-las.
A campanha do PT girou em torno de um slogan sem sentido: ""Um outro Brasil
é possível".
É claro que muitos outros Brasis são possíveis. E
muitos deles seriam piores do que o Brasil que temos hoje. O Brasil poderia
se unir em torno de um demagogo populista, como fez a Venezuela, ou declarar
a moratória, como a Argentina. Algumas vozes da esquerda que ficou
para trás gostariam que o Brasil fosse uma ditadura marxista, como
Cuba ou a Coréia do Norte. Quase todo o mundo gostaria que o Brasil
fosse mais semelhante à Suécia, mas isso vai demorar.
A questão não é se um outro Brasil é possível,
mas qual dos muitos Brasis possíveis é viável. Na minha
opinião, a melhor possibilidade para o Brasil seria seguir o modelo
do Chile. Não me refiro ao Chile de Allende nem ao de Pinochet, mas
ao Chile democrático e socialista dos últimos 15 anos. O Chile
cortou a pobreza pela metade ao mesmo tempo em que melhorou o padrão
de vida de todos seus habitantes e protegeu os direitos humanos e as liberdades
democráticas. O Brasil poderia fazer o mesmo. Não existe nenhum
grande segredo que explique o sucesso do Chile. Este foi conquistado por
meio de quatro políticas principais:
- Trabalhar duro para manter um consenso político, incluindo o envio
de projetos de lei importantes aos partidos de oposição para
obter os conselhos e o consentimento deles.
- Reduzir os gastos do governo de modo a manter um superávit orçamentário
e reduzir a inflação.
- Aumentar os impostos para financiar o aumento dos gastos com educação,
saúde, formação dos jovens e habitação
para os pobres.
- Aumentar em muito o índice de investimento, incluindo os investimentos
externos diretos.
Foi mais ou menos isso o que Fernando Henrique procurou fazer, e Lula está
tentando fazê-lo ainda melhor. O Brasil partiu no caminho certo dez
anos atrás, com o Plano Real. O país avançou por esse
caminho, mas não chegou tão longe quanto esperava. Lula espera
avançar mais pela mesma estrada -e vai precisar de toda a ajuda que
puder conseguir. Ele vai precisar que a população mantenha
a paciência quando ele topar com obstáculos e desvios no caminho.
Fernando Henrique teve popularidade menor do que a de Lula principalmente
porque dizia às pessoas exatamente o que estava fazendo. Lula ganhou
o concurso de popularidade à base de promessas indefinidas e visões
utópicas. Isso se enquadra muito bem na tradição da
política latino-americana, e não há dúvida de
que funcionou bem na eleição. Mas pode representar uma receita
de desastre quando a população se desilude porque as promessas
não podem ser cumpridas. Um pedido público de desculpas a FHC
corrigiria a falsa impressão de que Lula tem um modelo novo e revolucionário
para o Brasil, sem falar na ilusão de que o Brasil precisa desse modelo.
Ted Goertzel é professor de
sociologia na Universidade Rutgers, em Camden, Nova Jersey, e autor de ""Fernando
Henrique Cardoso e a Reconstrução da Democracia no Brasil"
(Ed. Saraiva, São Paulo, 2002).